Objetivo do NY-eCronicas

Crônicas



Com certeza, crianças, poetas e, talvez, outros d'alma alhures são alguns dos que têm poder de mapear, compreender os meandros dos pequenos gestos e a partir deles extrair interessantes histórias. Não raro, a voz de um gesto, de um olhar ou da mágica de um toque quase imperceptível pode dizer e representar mais que palavras.


Qual o seu nome

        A ventura do destino de minha viagem a Budapeste, além do enlevo inerente às veredas do rio de histórias e encantos dessa bela e inspiradora cidade, houve por bem me reservar inúmeras oportunidades e situações, às vezes engraçadas, que marcaram o período de minha estada no país. Foi numa dessas situações, em meio a um sentimento de forasteiro em terra estranha que aprendi a palavra húngara köszönöm.
       Três dias depois de minha chegada, precisei ir ao banco. Chamei um colega de trabalho para me ajudar com o idioma. Meu amigo, demonstrando fluência, foi logo se entendendo com a funcionária, uma menina com voz suave, forte presença, cabelos ligeiramente loiros e sorriso espontâneo nos lábios. Sucedeu, ao final de nossa conversa, que me dirigiu a moça uma palavra. Sem dúvida, era uma iniciativa informal e muito simpática da menina tentando vencer a barreira da comunicação, falando-me diretamente. Confesso que senti um duplo impacto; não sabia se continuava prestando atenção no encanto dos olhos e da voz da menina ou no quase-sorriso de seus lábios. Meio confuso e constrangido diante daqueles olhos que me incomodavam, tratei de apurar o melhor de meus sentidos para compreendê-la ou quem sabe adivinhar, pelo menos, o que ela falava, afinal já me aflorava à alma uma forte sensação de que havia me enamorado do idioma magiar, conquanto não conhecesse uma única palavra em húngaro. Minha estratégia funcionou, pois compreendi perfeitamente a frase da moça. Que melhor sensação poderia desejar um estrangeiro diante de uma língua estranha? Comemorava, ainda que em silêncio, essa primeira vitória, quando a menina repetiu a frase e notei que, na realidade, ela falava algo em português e não em húngaro.
         Ela havia dito: “qual seu nome?” Apesar do acento húngaro, até uma criança podia entender o que ela estava dizendo. Era português.
        Ok, a bem da verdade, poder-se-ia fazer algumas correções na sua pronúncia: a entonação não dava à pergunta o sentido de interrogação, mas o de afirmação. Havia também na expressão uma dinâmica não familiar, quero dizer, como interlocutor tinha a sensação de que a frase inteira era pronunciada em uma única palavra. Mesmo assim, acho que um professor de línguas, por mais rígido que fosse, daria uma nota razoável à sua tentativa. Afinal estava claro: ela queria saber o meu nome.
        Olhei para o meu colega de trabalho e disse: veja a menina está falando português! Em seguida, rapidamente voltei-me para ela a fim de corresponder à sua simpática brincadeira. Queria que soubesse que o seu português estava bom, muito bom!
        Meu no-me é Os-val-do Mo-ra-is, respondi sorrindo, mas a reação da moça foi estranhíssima, como se eu lhe tivesse confundido ou dito algo inoportuno. Percebi imediatamente que minha resposta não atendeu à sua expectativa. Ela, então, disparou outra vez, um pouco mais enfática do que antes, com seu acento húngaro: “qual seu nome!” Novamente senti aquela mesma sensação: a frase toda pronunciada em uma única palavra. Na dúvida, pensei: vou também ser mais enfático na resposta à sua pergunta.
       Osvaldo!
       Meu colega percebendo algo errado na comunicação, meteu-se na conversa para esclarecer. Ele via graça nisso tudo e ria. Explicou primeiro para a menina o que estava ocorrendo. Ela imediatamente também não segurou seu riso.
      Meu Deus, pensei, “acho que falei alguma bobagem. Meu nome, em húngaro, deve lembrar alguma piada ou poderia indicar outra coisa pior. Já pensou se for algo do tipo 'pescoço' em francês; 'dia de pagamento' em inglês ou o nosso verbo 'ficar', em Italiano ou ainda ter o mesmo significado do sobrenome de um mafioso arrependido?” Por pouco, não podia também segurar meu riso. Não sabia como reagir. Juntar-me-ia aos dois, liberando uma meia gargalhada como quem alegra a corte ou permaneceria com minha cara de confuso e assustado, na esperança de uma explicação talvez mais engraçada e menos embaraçosa?
     Ela não está perguntando o seu nome! Corrigiu-me depressa o meu colega
     A moça está dizendo: Köszönöm e não qual o seu nome.
     Köszönöm quer dizer obrigado em húngaro.
     Foi um alívio, ouvir essa explicação. Nunca mais esqueci que köszönöm não é igual a “qual seu nome”, embora a pronúncia seja muito parecida.
     Sempre agradeço por esse mal-entendido: obrigado a “köszönöm”, pois esta palavra húngara, cuja entonação da pronúncia lembra o português, foi um bom motivo para dar início a uma excelente amizade em Budapeste.

Osvaldo Morais

10 comentários:

  1. Conforme havia prometido, publico o texto "qual o seu nome" esclarecendo como aprendi a palavra Köszönöm em Húngaro.

    Abraço a todos e muito obrigado pelos comentários e e-mails que tenho recebido.

    Osvaldo Morais

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  2. Koszonom osvaldo.

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  3. Olá amigos,

    Estive assuntando o espaço dos comentários de meu último texto. Apenas 2 estavam lá e ambos produzidos no meu próprio PC.
    Contudo, estou sabendo que vários leitores escreveram comentários, mas seus textos não apareceram na página. Acabrunhado, fui descobrir apenas hoje que, por algum erro eletrônico, os valiosos comentários enviados por vocês não estavam chegando até o Blog. Fiz uma pequena mudança no "template" da página e espero tenha sido suficiente para solucionar.
    Estou muito agradecido a todos pelos comentários e sugestões que venho recebendo. Prometo novo texto proximamente.
    Abraço,
    Osvaldo Morais

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  4. Osvaldo, agora vc se superou! Sua vida ~e muito mais interessante do que da media da humanidade.L~ucia Regina

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  5. Gostei muito! Saudades de vc meu amigo.Anna.

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  6. Grande Osvaldo, inteligente e legal, vc sempre escreveu muito bem, admiro vc,um abraco do amigo, Magela.

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  7. Obrigado Magela. Você e Lalá são pessoas muito especiais para mim. Abração meu amigo.

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