Objetivo do NY-eCronicas

Crônicas



Com certeza, crianças, poetas e, talvez, outros d'alma alhures são alguns dos que têm poder de mapear, compreender os meandros dos pequenos gestos e a partir deles extrair interessantes histórias. Não raro, a voz de um gesto, de um olhar ou da mágica de um toque quase imperceptível pode dizer e representar mais que palavras.


MANCUEBA

MANCUEBA

Fim de fevereiro, mas o frio forte ainda persistia em Nova York. O Sol não se apresentava. Preferia estar quieto e escondido, aquecendo-se para brilhar a primavera. Em Manhattan, prá lá de seus arranha-céus, estavam apenas sombras de nuvens emburradas, sem os habituais desenhos coloridos de nossa infância. A festa era dos ventos que sopravam, sem pedir licença, entoando por quantas fendas encontrar suas canções.

Pela manhã, cumpria minha rotina diária, caminhando pela "46th Street". Parei na esquina da "2nd Ave.", esperando o semáforo para, então, seguir em direção ao número 747 da "3rd Ave", onde trabalho.

Naquele momento, diante do "normal" vai-e-vem de carros e de pessoas - o que nesta cidade não me impressiona mais - notei que ao lado havia um jovem com sua mão direita apoiada em uma bengala de madeira.

Permiti que o rapaz atravessasse à minha frente. Foi curioso ver sua maneira particular de mancar. Havia algum problema em sua perna esquerda e, por isso, ele era obrigado fazer um esforço, dando um engraçado pulinho para conseguir andar.

Porém, o mais curioso foi observar algo bastante incomum no moço: ele se olhando nos vidros espelhados de cada prédio ou estabelecimento comercial que passava. O cara não perdia um "espelho".

Diante de todas as vidraças, sem exceção, ele diminuia seu ritmo, girava sua cabeça horizontal e elegantemente para o lado esquerdo, conferia o movimento de sua imagem refletida do outro lado e continuava marchando.

Perguntei-me:

- será que ele está conferindo se manca legal mesmo?
- ou seria essa mais uma nova "neura" novaiorquina?
- poderia estar fazendo algum ensaio solitário para alguma peça da Broadway.

Analisava o moço à minha frente. Seu andar já me parecia muito mais uma dança ensaiada, do que o caminhar de alguém sob auxílio de uma bengala de madeira. Havia rítmo, estilo e planejamento no seu andar.

- acho que o que ele gosta mesmo é de se ver com uma bengala na mão.
- Isso, talvez, lhe faz sentir pena de si mesmo - continuei minhas elocubrações mentais.

Paralá!

No meio do quarteião, o cara resolveu atravessar para o outro lado da rua, apesar da confusão de carros.
Senti-me meio que trapaceado.
Estava muito interessante e hilárico.
Não podia perder o próximo "espelho".

Ele resolveria dar uma parada, ajustar sua bengala, fazer uma pose diferente, mudá-la de mão e até, quem sabe, passar a mancar com a perna errada.
Daí ele poderia se confundir e, por fim, desistiria daquilo que parecia ser uma brincadeira, um teatro-solo ou uma farça e, assim, conquanto lhe parecesse útil, lançaria ao lixo sua bengala e pronto. Aliás, isso, - jogar algo útil no lixo - é uma prática bem característica dos novaiorquinos. É possível encontrar televisão, geladeira, sofás, estantes e até camas. Os imigrantes latinos fazem a festa. Porque não uma bengala de Madeira?

Por nada, poderia perder o próximo lance. Precisava reagir.

Imagina o que fiz, ao ver o moço do outro lado da rua?

Não tive dúvida, atravessei correndo, com o risco de ser atropelado e tudo, só para garantir o fim dessa história.

Já do outro lado, subimos marchando, juntos, agora pelo lado direito do quarteirão da 46, entre a 2a e 3a Avenidas.

Teimosamente, ele continuava seu teatro. Virava-se, diminuindo ligeiramente seu caminhar, ao menor sinal de sombra nos vidros e, após passar em revista sua postura, continuava satisfeito. Era possível perceber sua reação.

Eu ia alí, bem atrás dele.
Conferia tudo. Até passei a dar uma olhadinha prá ver se conseguia construir a imagem do moço no espelho.
Passava um, eu pensava, "nesse aí, ele se deu mal, não se viu tão bem … Está meio fosco…".
Passava outro, dizia eu, com meus botões, "o vidro está sujo" e, mais outro, eu disparava, "aquele ali está sem luz suficiente... dançou". Assim por diante, ia tirando minhas conclusões.

Estava tão envolvente que, por pouco, me vi ensaiando aqueles mesmos “pulinhos”. Lembrei-me do "Ensaio sobre cegueira" de Saramago, pois, além de já estar assimilando aqueles pulos engraçados, eu também não perdia um espelho.
Estava contaminado.

Quando chegávamos na esquina da 3a Avenida, já no fim do quarteirão, perto da loja “Dress Barn”, meu celular tocou.
Ele estava no bolso do paletó e eu usava um sobretudo para me protejer do frio.
Por isso, tive que desabotoar o casacão para alcançar o aparelho. Era Janete, minha esposa.

- Sim, Janete, já estou quase chegando ao trabalho e fui logo adiantando:
- Estou acompanhando uma cena muito interessante.
- o que é? Perguntou ela.
- Tem um cara aqui caminhando e...

- Opa!

- Cadê o cara?
- Perdi, Janete, perdi.
- Perdeu o que, Osvaldo?
- Depois te explico melhor, por agora, vou ver onde ele entrou e
- deliguei o telefone.

Simplesmente, o mancueba desapareceu, enquanto eu me distraia falando ao celular.

Pena. Fiquei sem saber.

Contudo, ao retornar a rotina de volta pra casa, experimentei uma grande dificuldade: Os "espelhos" exerciam misteriosa atração sobre mim. Era enorme a tentação. Queria vê-los, dar, pelo menos uma olhadinha neles, a "la mancueba".

Será que isso pega?

Osvaldo Morais

21 comentários:

  1. "de: Cleide Capelozza
    22:13 (1 hour ago)


    Olá irmão Osvaldo


    Admiro muito o seu dom de escrever. Ao ler podemos imaginar a cena e nos divertir com ela. Parabéns! Espero que o irmão reencontre o tal mancueba qualquer dia e continue a sua história. Mas se algum dia eu estiver andando atrás do irmão vou ficar de olho para ver em quantos espelhos ou vitrines o irmão vai olhar... RS
    Cleide

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  2. de ferdipsi
    21:49 (1 hour ago)


    Muito bom mesmo. Fiquei bem aqui imaginando a cena!! Tipicamente NY pessoas esquisitas.. Assim mesmo.
    Bjs e saudades
    Fernanda
    Enviado pelo meu aparelho BlackBerry da Claro

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  3. Hilário, às vezes são os pequenos gestos e atitudes que nos chama a atenção, interessante essa sua forma de imaginação...Gostei! Achei divertida a leitura, no meio sem querer, acabei imaginando a situação e pode acreditar eu ri muito! Muito bom!

    BSB, Andreia Morais

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  4. Nossa, muito bom mesmo, estava tão concentrado que quando o celular tocou, perdeu o foco. hahahhahaha
    abraços,
    Thiago

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  5. Osvaldo, parabéns, vc escreve realmente muito bem, como eu já lhe disse. O blog é um passo para o livro, viu? Fiquei realmente feliz, porque já identifiquei em vc um grande cronista dos pequenos detalhes do dia-a-dia. Fiquei super orgulhosa! Bj
    Lúcia

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  6. Oi gente.

    Agradeço a todos pelos comentários e e-mails que venho recebendo.

    Adoro escrever. Sinto-me como quem descobre a estratégia do amor e da paixão, num ato de fé e esperança, que se agiganta depois de cada mergulho em águas mais e mais profundas do sentimento. O oxigênio indispensável vem dos incentivos recebidos.

    Obrigado.

    Osvaldo Morais

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  7. Puxa Osvaldo, não sabia que você escrevia tão bem!

    Beijinhos grandes e continue escrevendo...

    Fina

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  8. ai janete, tinha que ligar logo naquele momento?
    rsrssrsrsrsrrs
    Eudalva

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  9. cuidado viu! vai que é contagioso?! hahaha

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  10. Caro Osvaldo,
    "Pouco se me da que a ônagra claudique, o que me apraz é acicatar".
    Vai gostar de "mancueba" assim, la em Nova Iorque, hein?!!!
    Parabéns, senhor observador-participante.
    Abração,
    Rev. Valter Matos

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  11. hahahaha

    Eu queria saber o final da história também!
    Se fôssemos contar sobre todas as "figuras" que vemos nessa cidade dava mais que 1 livro só!

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  12. Muito bom, mas também queria saber por que ele fazia aquilo. Valeu!

    abraços a todos

    Celia

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  13. Oi Osvaldo,
    Como gostei!
    Todos aqui em casa gostaram muito.
    O texto é simplesmente sensacional, com riqueza de detalhes incomparável.
    Senti-me transportada à cena que trouxe uma adorável sensação de epifania.
    Um grande abraço da sua irmã
    Rosa

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  14. Eu sabia que voce era inteligente mas depois que li este testo ficou mais que comprovado,parabens,`Teresa mana.

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  15. Agradeço a gentileza de suas palavras.

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  16. olá, osvaldo vc não me conhece mais o curioso é que eu conheci alguem com seu mesmo nome ;osvaldo ribeiro de morais, meu saudoso pai um abraço obrigado por me lembrar dele. sandro; sandrosanger@hotmail.com.br
    oliveira minas gerais

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  17. Sandro, é muita coincidência mesmo. Um abraço e fique na paz.

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