Objetivo do NY-eCronicas

Crônicas



Com certeza, crianças, poetas e, talvez, outros d'alma alhures são alguns dos que têm poder de mapear, compreender os meandros dos pequenos gestos e a partir deles extrair interessantes histórias. Não raro, a voz de um gesto, de um olhar ou da mágica de um toque quase imperceptível pode dizer e representar mais que palavras.


Köszönöm

Köszönöm (*)

       Amanhecia. Não descolei a cara da janela até ver o rio de verdade. Do alto, suas águas misturavam-se com uma brancura sem graça espalhada ao longo de toda a orla. Apesar da pouca contribuição do Sol, cujo brilho era quase-não, ajustei meus olhos na esperança de identificar algum reflexo dos azuis das fantasias e dos sonhos de suas histórias. Inútil. Não conseguia enxergar o rio de Strauss ou o de Kertész. As águas, sem brilho, cumpriam uma missão cinzenta, seguindo em silêncio e quase sem direção, tímidas e desiguais, por corredores semicongelados e ameaçados pela neve.
    Certamente um fotógrafo ávido por amanhar sua coleção com fotos de inverno não deixaria escapar essa oportunidade, mas o momento para mim era outro; aquela imagem representava uma triste declaração de que o Danúbio de verdade era um rio descorado, não se parecia com o incansável conselheiro dos poetas, o caudaloso rio das valsas em cores, com o qual eu havia sonhado.
    Assim, com um sentimento apequenado e minh’alma emburrada, desembarquei no aeroporto de Budapeste.
      Ao cair da tarde, não nevava nem chovia, apenas ventava um frio manso sobre a cidade. Com receio de passar a noite em jejum, caminhei desconfiado em direção à ponte Erzsébet hid para assuntar o rio de perto. Dar-se-ia o caso que a minha primeira impressão tivesse sido prejudicada depois de uma fadigosa viagem de muitas horas de vôo. Quando levantei os olhos e dei com ele em frente de mim, passei a marchar mais apressadamente, espiando suas margens, até chegar à ponte. Levei mais alguns minutos para alcançar o que, pelos meus cálculos, seria o meio de sua estrutura, onde me instalei para admirar melhor aquela imensidão tão diferente do que havia concluído da janela do avião. Meus pensamentos, os alados, naturalmente já queriam dar suas asas à imaginação. Fechei os olhos. Surgiam relâmpagos sobre as águas, como explosões artificiais, os quais eram elevados um após o outro às alturas, como um gigante lençol de luz, até perderem sua força. Então, explodiam em silêncio e flutuavam esvoaçantes como enormes flocos coloridos. Pensei: assim deve ser o mistério das mulheres, como relâmpago que nasce em meio às torrentes e elevado às alturas, brilha e depois se desfaz num espetáculo silencioso. Sempre quis compreender um pouco do espetáculo que é o sentimento feminino, mas quando penso ter avançado, vejo que ainda estou girando em torno do marco zero. Estas águas, talvez, saibam tudo sobre paixão, amor, encontros e desencontros… Desconfio que este portentoso oculta os mistérios das mulheres aos normais e, em gotas, os revelam aos poetas. Delirava-me o coração, mas percebi que pela primeira vez, em mais de meio século, me renascia a esperança de caminhar pr’além de meu velho conhecido limite inicial. Calei-me, então, acerca do que havia pensado pela manhã nos céus da cidade, na esperança de que meu silêncio fosse o bálsamo de minh’alma. Deu certo.
      Percebi que me marejavam as lágrimas. Esse foi o sinal de que havia acordado e que tudo não passava de um delírio. Voltei com minha visão meio embaçada e inexoravelmente em torno do marco zero de minha experiência.
      É provável que os desafios desta terra começam no extraordinário meandro das águas do Danúbio que, na Hungria, atravessam o país do norte para o sul e não do oeste para leste. Seria o mistério de uma consequencia ou de uma razão (quem vai saber?) da nobreza de sua gente, o povo magiar, que fala uma ininteligível língua?
     No outro dia, o susto de minha primeira tentativa de comunicação, levou-me a meditar sobre a complicada língua húngara. Por acaso, além dos mistérios do Rio Danúbio esse não poderia ser um outro desafio indecifrável?

Abraço,

Osvaldo Morais

(*) O titulo deste texto só vai fazer sentido na publicação da próxima crônica, quando vou explicar porque esta foi a primeira palavra que aprendi em húngaro e a circunstância engraçada em que isso aconteceu.
Até lá pessoal.

7 comentários:

  1. Prentendo publicar o próximo texto em 20 dias

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  2. Ei Osvaldo, não é de agora que falo que tu deve publicar livros, estou sentindo no ar que teremos mais um escritor na praça. Gostei muito e de fato faz a gente visualizar a crônica como um filme. Parabéns! Um abraço, Marta Macedo.

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  3. Cada dia melhor, adorei como descreveu o rio

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  4. 10:52 (3 hours ago)
    Grande Osvaldo,
    gostei! Agora, falta explicar o "qual seu nome" direitinho.
    Abraços
    Leandro

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  5. Já estou curiosa. Muito boa essa crônica. deu vontade de ir para lá. mande a outra crônica! Lúcia

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  6. Gosto disso: dançaram na minha cabeça imagens de um lugar que ainda não conheci e, como no mundo de Bob, as imagens continuam fazendo gracinhas para mim.Obrigada por estes momentos, Beijo sua irmã Marilia.

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